Foi por poucos minutos que o fotógrafo Roberto Higa de 67 anos, não entra para a lista da maior tragédia aérea de Mato Grosso do Sul registrada até hoje, que completa 44 anos nessa terça-feira (18).

Ele e o jornalista Luca Maribondo deveriam estar na Base Aérea de Campo Grande às 6h daquele sábado para acompanhar o voo militar do avião C-115 Búfalo, e cobrir as atividades dos militares na região. O motorista da empresa, que deveria buscar os dois, atrasou porque tinha que entregar os jornais do dia. Quando a equipe chegou para o embarque, a aeronave já tinha subido:

“Eu lembro que quando chegamos lá, só deu tempo de ver a rabeira do avião subindo”, relembra Higa.

Maior desastre aéreo de MS foi no dia 18 de setembro de 1974, em Ponta Porã (MS). — Foto: Roberto HigaMaior desastre aéreo de MS foi no dia 18 de setembro de 1974, em Ponta Porã (MS). — Foto: Roberto Higa

Maior desastre aéreo de MS foi no dia 18 de setembro de 1974, em Ponta Porã (MS). — Foto: Roberto Higa

O avião da Força Aérea Brasileira, levava 20 militares para uma inspeção do Exército na fronteira do Brasil com Paraguai, quando perto de pousar, uma das asas bateu em um poste de energia elétrica e explodiu nas proximidades do aeroporto de Ponta Porã (MS), segundo o suboficial da Aeronáutica e historiador da Base, Carlos Alberto de Carvalho.

Avião com 20 militares cai em Ponta Porã e corpos foram levados de trem para Campo Grande. — Foto: Roberto HigaAvião com 20 militares cai em Ponta Porã e corpos foram levados de trem para Campo Grande. — Foto: Roberto Higa

Avião com 20 militares cai em Ponta Porã e corpos foram levados de trem para Campo Grande. — Foto: Roberto Higa

O fotógrafo conta que era uma manhã bastante nublada, típica do inverno sul-mato-grossense. No longo trajeto de volta para o jornal, Higa e o jornalista discutiram com o motorista:

“Dentro do carro nós falamos para ele: ‘Você tá ferrado cara, e a culpa de tudo isso foi sua. Nós vamos te entregar para o chefe’, porque essa missão era um convite do comandante e nós tínhamos perdido o voo”, explica.

O abraço no motorista

Mais tarde, na sede do jornal, o fotógrafo recebeu a informação de que por volta das 7h da manhã, o C-115 Búfalo havia caído.

“O dia estava chuvoso e com muita névoa. Nos preparamos para sair a caminho da fronteira para registrar o acidente que era para a gente estar no meio. Mas antes, o jornalista que me acompanhava, passou para dar um abraço no motorista que atrasou e com isso salvou nossas vidas. Ele não estava entendo nada”, conta.

Destroços da aeronave Búfalo que caiu no dia 18 de setembro de 1974, em Ponta Porã (MS). — Foto: Roberto HigaDestroços da aeronave Búfalo que caiu no dia 18 de setembro de 1974, em Ponta Porã (MS). — Foto: Roberto Higa

Destroços da aeronave Búfalo que caiu no dia 18 de setembro de 1974, em Ponta Porã (MS). — Foto: Roberto Higa

O percurso feito de carro de Campo Grande até o local do acidente, demorou cerca de 5 horas, por conta da situação da estrada que ainda não tinha asfalto. Higa relembra que eles foram praticamente a única equipe jornalística a registrar a tragédia.

“Eu fui para fotografar e até então ninguém tinha ido para lá. Eu me lembro que quando cheguei no local do acidente, já tinham retirado todos os corpos, uns foram levados para o hospital. Foi algo muito chocante.”

“Nunca vi tantos caixões”

Higa conta que, desde o acidente até o cortejo, seu material foi enviado para vários jornais do eixo Rio-São Paulo. Ao retornar à capital, ele foi para o velório:

“Nunca vi tantos caixões, foi tenebroso. Minha ficha só foi cair que era para eu estar entre os mortos no terceiro dia. Eu estava na correria com aquela cobertura e aí parei e vi a fria que nós tínhamos escapado”, finaliza.

De acordo com o Oficial e historiador da Base Aérea em Campo Grande, Carlos Alberto de Carvalho, o acidente vitimou 19 militares, entre eles o Comandante da Base, Coronel José Hélio Macedo Carvalho.

Ele conta que o único sobrevivente da tragédia foi o mecânico da Aeronáutica, Shiro Ashiuchi que hoje mora no interior de São Paulo. Ele passou mais de 1 ano no hospital recuperando-se. O militar perdeu uma das pernas e, segundo a investigação, o homem só escapou porque estava sem o cinto de segurança, atrás do banco do piloto. A equipe do G1 localizou o sobrevivente, mas ele não quis comentar o caso.

O único sobrevivente do acidente aéreo em MS ficou mais de um ano no hospital. — Foto: Roberto Higa/ReproduçãoO único sobrevivente do acidente aéreo em MS ficou mais de um ano no hospital. — Foto: Roberto Higa/Reprodução

O único sobrevivente do acidente aéreo em MS ficou mais de um ano no hospital. — Foto: Roberto Higa/Reprodução

Segundo Carlos, atualmente há uma urna na sala histórica da Base Aérea que contém parte dos destroços da aeronave e, ao lado, um pequeno quadro com a lista dos 19 mortos, que foram velados no Circulo Militar da Capital – 6 militares da aeronáutica e 13 do exército. Os caixões vieram de trem para a Capital.

Urna com os destroços do avião C-115 Búfalo que caiu em Ponta Porã em 1974 — Foto: Flávio Dias / G1 MSUrna com os destroços do avião C-115 Búfalo que caiu em Ponta Porã em 1974 — Foto: Flávio Dias / G1 MS

Urna com os destroços do avião C-115 Búfalo que caiu em Ponta Porã em 1974 — Foto: Flávio Dias / G1 MS

A tragédia que aconteceu quando Mato Grosso do Sul ainda era Mato Grosso (a divisão dos estados aconteceria 3 anos depois), foi o único de grandes proporções registrado no estado. Quem visita a Base Aérea da capital, bem no centro, encontra uma réplica da aeronave:

Réplica do avião Búfalo que está localizado no centro da Base Aérea de Campo Grande — Foto: Flávio Dias / G1 MSRéplica do avião Búfalo que está localizado no centro da Base Aérea de Campo Grande — Foto: Flávio Dias / G1 MS

Réplica do avião Búfalo que está localizado no centro da Base Aérea de Campo Grande — Foto: Flávio Dias / G1 MS

Higa, que até hoje fotografa, conta que na ocasião do acidente focou na oportunidade da cobertura para não pensar no que, por pouco, não aconteceu: “Foi uma cena muito tenebrosa, eu não gosto nem de falar muito”. As fotos do acidente estão no arquivo pessoal do fotógrafo.

O motorista, Benedito, “seo Bené”, que já era idoso, faleceu há muitos anos. O jornalista que na hora de sair para cobrir o acidente voltou para abraçar seo Bené, Luca Maribondo, faleceu há 2 meses. Atrás do aeroporto de Ponta Porã (MS), foi construído um memorial, com o nome de todas as pessoas que morreram no acidente.

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