Devido à forte presença de animais silvestres na região do principal destino turístico de Mato Grosso do Sul, o deslocamento até Bonito poderia ser um espetáculo à parte para viajantes. Porém, as vias já se tornaram um cenário macabro, marcadas pelo avistamento frequente de animais mortos, vítimas da imprudência de motoristas.

A situação é rotineira para o empresário e instrutor de mountain bike Marcio Lima, de 50 anos, que há 23 trocou Campo Grande por Bonito. Todos os dias, ao pedalar pelas estradas, Marcio constata a existência de animais mortos, muito deles esmagados e dilacerados. Pacientemente, Marcio retira os bichos da estrada. Contudo, antes ele registra imagens o que vê.

Somente até o último domingo (14), Marcio fotografou 317 animais mortos, de tatus a jaguatiricas. As fotos vão parar em seu Facebook e causam mal-estar e indignação em quem vê. A estratégia é intencional. Marcio crê que as postagens funcionam como denúncias.

“Adotei esse hábito de fotografar quando comecei a notar que a situação estava demais. Todo dia eu encontro animal atropelado. E todo dia eu tiro foto. Vou postando nas minhas redes sociais, para ver se as pessoas tomam consciência da gravidade do que está acontecendo”, destaca.

Os registros ocorrem em trecho muito pequeno da rodovia que conecta Bonito ao Parque Ecológico do Rio Formoso.

“É onde está a ciclovia que, a muito custo, nós conquistamos. É só nesse trecho, que tem 7 km, é que tenho feito as imagens. Imagina nas outras estradas a quantidade [de animais mortos] que não deve ter. É um horror o que está acontecendo e parece que ninguém se importa”, considera.

Marcio, antes de retirar um filhote de onça que morreu atropelado em rodovia de Bonito (Foto: Arquivo pessoal)

Para Marcio, o desmatamento tem causado desequilíbrio ambiental. Assim, animais precisariam se deslocar mais em busca de alimento. no meio do caminho, eles encontram as estradas, e grande chance de um destino fatal.

“Desde que as lavouras se intensificaram, a gente começou a notar mais animal na estrada. E os motoristas não colaboram. Abusam mesmo da velocidade. Pode ser um tatu algum dia, mas e se uma Anta cruzar a estrada? Não vai sobrar ninguém no carro. Nem isso os motoristas estão considerando”, afirma.

Bonito é apontado como um dos destinos preferidos pelos sul-mato-grossenses neste feriadão. A certeza de que as estradas estarão cheias é mais uma preocupação para Marcio. Apesar de sobreviver do ecoturismo, o instrutor teme que motoristas continuem abusando da velocidade e vitimando animais silvestres.

Providências

Ambientalistas fazem coro a Marcioe defendem que travessias para animais são fundamentais para evitar a carnificina nas estradas. A questão já foi até apresentada na Assembleia Legislativa, por meio de proposta de lei que pedia a instalação dos pontos em “estradas, rodovias e ferrovias, para que facilite a preservação e proteção da fauna em todo o território do Estado de Mato Grosso do Sul”.

Porém, nas três vezes que foi apresentada, nos anos de 2013, 2015 e 2016, pelo deputado Lídio Lopes (PATRI), a matéria sofreu veto – o último, pelo governador Reinaldo Azambuja (PSDB), que considerou que a proposta “fere a autonomia entre os poderes, pois cria obrigações para município, governo estadual e federal”, sendo, portanto, “inadequada e inexequível”.

Travessia de animais em rodovia na Holanda. Governo de MS considera medida “inexequível” (Foto: Reprodução)

O assunto volta a ganhar importância, já que o governo anuncia a construção da Rota Bioceância, que intensificará a atividade portuária em Porto Murtinho, no Pantanal. Com isso, as rodovias terão mais movimento, inclusive de veículos pesados.

“O que vai ser da nossa fauna quando isso for construído? Uma rodovia que vai trazer tanto dinheiro pro Estado, porque o projeto não pode ser pensado já com essas travessias? Não entendemos as prioridades do governo, mas certamente não é a natureza”, conclui Marcio.

MIDIAMAX

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